Sábado, Setembro 12, 2009

ficadica:

manual prático da gordinha

adipositivity (adorei esse nome, rs)


B. Green

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Quarta-feira, Setembro 09, 2009

Gordo é raça ruim, já disse. Não importa qual: o recém-cirurgiado, o que se prepara pra cirurgia ou o coitado que continua no esquema da dieta do abacaxi. Esse último sujeito tem o meu respeito (não que eu ache que eu perdi o meu ao decidir botar pra foder e cortar metade do estômago fora – come on, cada um carrega consigo sua bagagem histórica ou clínica).

O fato é que sempre tem uma história particular sobre o momento-ponto-final que fez o gordo tomar a decisão de cortar o estômago. A Internet tá cheia delas – na maioria das vezes são todas de cunho dramático. É que gordo é tudo fodido, mesmo. Mas, coitados, jamais.

Eu, por exemplo, sou exemplo clássico da malandragem e meu ponto final aconteceu em Goiás, na Chapada dos Veadeiros - local mais conhecido por habitar uma excêntrica vegetação, simpáticos cristais, cachoeiras de presença, hippies, maconheiros e a parte magra da população. É de conhecimento dos senhores, é claro, que gordo não faz trilha, gordo come e hiberna. Mas eu sou a P. Geller, gordinha gente-boa. Eu sou um estouro, eu sou on the rocks e eu não perco a oportunidade de ficar entalada em nenhum lugar.

Comi uma coxinha, desci uma trilha mínima (íngreme, mas ainda mínima), me postei sob o planeta solar, enquanto peixes me aborreciam ao rio, e fumei um cigarro após o outro, até o sol ir embora. Chegado o momento de ir embora, consegui alcançar metade do caminho, repensei, fiz a Kátia, fingi que não vi que estava ficando pra trás, estanquei em algum ponto alto e, com a respiração ofegante e meu peito se contorcendo, doendo como dói a um cardíaco, pensei: “Só saio daqui de helicóptero, queridos”.

É claro que, como todo bom gordo, imaginei a cena do helicóptero toda em minha cabeça, enquanto, sentada e humilhada, pensava em acender mais um cigarro, só pra matar tempo: O helicóptero chegaria cinco horas depois, lançaria uma rede de capturar golfinhos e eu seria içada como um objeto redondo não exatamente identificado pelos aborígines que ali próximos me observariam subir aos céus, exatamente como Jesus, no terceiro dia.

Contei cinco minutos, olhei pra cima, vi que alguns amigos, já cientes do meu fracasso físico, esperavam mais acima - outros continuavam a caminhada achando que eu me recuperaria rápido, afinal, eu havia fumado demais. Foi ali, sentada numa pedra que fazia doer o cóccix, sob o sol e o céu do cerrado, avistando meus amigos, aqueles cretinos magros, desbravando com leveza aquela floresta enquanto eu me pensava içada por uma aeronave, que me constatei fodida.

Aliás, sou tão fodida que já viajei por países incríveis, podia ter várias histórias incríveis relativas à minha incrível decisão de submeter-me à donzela bariátrica, mas meu ponto-final aconteceu em Goiás, no meio do mato, com moscas voando sob minha cabeça. Ali, iniciei o projeto musa-verão 2011 e espero alcançar o êxito. Do contrário, vou morar na índia, que lá nós somos valorizadas.

P. Geller

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Segunda-feira, Setembro 07, 2009

cah-am.

vamos aos fatos:

- gordo recém-cirurgiado sabe falar sobre outras coisas sim, porra, é só mudar o foco. mas aí toda vez que a gente encontra alguém o assunto é esse. vai fazer o que? matar?

falando nisso, outro dia tava vendo uma apresentação do leandro hassum e ele falou que fez uma dieta e emagreceu 20 e poucos quilos - e que as pessoas, quando o encontravam, falavam: 'nossa, como seu rosto afinou!'. ele ficava puto, se perguntando se o rosto dele era do tamanho de um zeppelin. é mais ou menos isso. porra, e a minha bunda tamanho extra G murchando? ninguém fala dela? falta de sensibilidade é o uó.

- ok. a trevosa da minha amiga me culpa por tê-la feito engordar. eu admito que tenho um quê de 'fodeu, fiz mesmo'. mas, aí, eu tava me 'despedindo' da merda da comilança. tinha que ter uma compania boa de garfo. e eu não estou blasé. só finalmente eliminei o queixo duplo e as assaduras na virilha e essa sensação de liberdade é impagável.

- não digo meu nome nem que a caralha, e eu não sou gente-boa. sou apenas uma futura ex-gorda que pragueja, excuse moi. sou publicitária e designer e assumo que como apenas metade de um quibe e me entupo com um polenguinho - mas isso não me faz menos gente do que minha querida amiga gordinha gente-boa P. Geller.

jamais sentirei fome novamente!

B. Green

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Sábado, Setembro 05, 2009

Eu sabia que minha melhor amiga faria a cirurgia do estômago, e, porra, eu a apoiava (bem sabia como era a treva ser uma). Nunca imaginei é que eu teria culhão (ou IMC) pro mesmo procedimento cirúrgico um dia. Tampouco que, curiosa, em meio a exames pré-operatórios, passaria a ler blogs sobre ex-gordo ou, pior, sobre o gordo. É o fim. Uma que blog de gordo é troço meio cheio de auto-piedade, e isso me incomoda, não me identifico. Duas que gordo-recém cirurgiado é a pior raça que existe e não consegue falar de outra coisa que não sobre o trivial. Três que, porra, eu tenho mais o que ler do que a resenha sobre quantos mamões alguém cagou pela manhã.


Todos os dias pipocam mais dez blogs sobre esse ser flácido, coitado e adiposo. E eu fiquei de saco cheio - resolvi fazer o meu, que, de coitada, nada tenho, a não ser a minha indisposição intestinal.

Chamo-me x, mas me chamam de gordinha gente-boa, pq, de fato, sou gente boa. Eu podia ser a gordinha filha da puta, mas sou a gente-boa – o que, pra mim, tá de bom tamanho. GG, que nem a minha bunda. Sou formada em Direito, estudante de Jornalismo, Assessora de Comunicação e gorda. Prazer, vou assinar P. Geller, pra não pegar mal.

Pra me acompanhar, chamo minha melhor amiga, B. Green, recém cirurgiada, pra entrar no barco. Ela que se apresente, porque sua senhoria perdeu a moral comigo, hoje, depois que a vi comendo um quibe pela metade. Um quibe. Pela metade - quatro palavras que não se conjugariam em uma única sentença, no que se trata da nossa antiga parceria alimentícia. Aliás, acho que engordei mais após conhecê-la. A culpo por isso e acredito que a cirurgia a tornou blasé. Odeio isso. Gentinha sem espírito.


P. Geller

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